Thursday, March 13, 2008

Homem transportado e o cadáver de uma mulher

Quis-te tanto que gostei de mim!

tu eras a que não serás sem mim!

vivias de eu viver em ti

e mataste a vida que te dei

Por não seres como eu te queria.

Eu vivia em ti o que em ti eu via.

E aquela que não será sem mim

tu viste-a como eu

e talvez para ti também

a única mulher que eu vi!

 

 

 

 

Almada Negreiros  

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A meio pau

Queria mais um amor. Escrevi cartas,

 Remeti pelos correio a copa de uma arvore,

Pardais comendo no pé um mamão maduro

- coisas que não dou a qualquer pessoa -

E mais que tudo, taquicardias,

Um jeito de pensar com a boca fechada,

Os olhos tramando um gosto.

Em vão.

Meu bem não leu, não escreveu,

Não disse essa boca é minha.

Outro dia perguntei a meu coração:

O que que há de durão, mal de chagas te comeu?

Não, ele disse: é desprezo de amor.

 

 

 

Adélia prado

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Friday, March 7, 2008

Mar Português

Ó mar salgado, quanto do teu sal

São lágrimas de Portugal!

Por te cruzarmos, quantas mães choraram,

Quantos filhos em vão rezaram!

Quantas noivas ficaram por casar

Para que fosses nosso, ó mar!

 

 

Valeu a pena? Tudo vale a pena

Se a alma não é pequena.

Quem quer passar alem do Bojador

Tem que passar além da dor.

Deus ao mar o perigo e o abismo deu,

Mas nele é que espelhou o céu.

 

 

Fernando Pessoa

   

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Poema do futuro

Conscientemente escrevo e, consciente, medito o meu destino.

 

 

No declive do tempo os anos correm, deslizam como água, até que um dia um possível leitor pega num livro e lê, lê displicentemente por mero acaso, sem saber porquê.

Lê, e sorri.

Sorri da construção do verso que destoa no seu diferente ouvido;

 

 

Sorri dos tempos que o poeta usou onde os fungos do tempo deixaram cheiro a mofo; e sorri, quase ri, do íntimo sentido,

Do latejar antigo

Daquele corpo imóvel, exhumado

Da vala do poema

 

 

 

Na História Natural dos sentimentos

Tudo se transformou.

O amor tem outras falas,

A dor outras arestas,

A esperança outros disfarces,

A raiva outros esgares.

 

 

Estendido sobra a página, exposto e descoberto,

Exemplar curioso de um mundo ultrapassado,

É tudo quanto fica, é tudo quanto resta

De um ser que entre outros seres

Vagueou sobre a Terra.

 

António Gedeão

 

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